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terça-feira, 16 de abril de 2013

CASAMENTO E DIVÓRCIO NA BÍBLIA



Casamento, Divórcio e Novo Casamento: uma perspectiva bíblica

Por Fernando Ferreira de Sousa 

Introdução 
“Polêmico”, o assunto é “polêmico”! Este vocábulo é empregado com freqüência quando o assunto de casamento, divórcio e novo casamento é abordado, porém não podemos desconsiderar a importância de definirmos uma posição a este respeito.
Todos os pastores e líderes responsáveis por ensinar a Bíblia para o rebanho precisam ter uma posição clara sobre este assunto tão importante para os nossos dias, pois cada vez mais o assunto surge ao nosso redor e dentro das igrejas evangélicas. Na verdade, até mesmo as denominações e movimentos evangélicos deveriam ter uma posição por escrito sobre este assunto.
Neste breve artigo pretendemos expressar uma posição bíblica sobre casamento, divórcio e novo casamento e para evidenciar que a posição é evangélica e conservadora alguns teólogos e exegetas serão citados como fundamentos teóricos. Começaremos com uma abordagem sobre a definição de casamento para depois tratarmos dos tópicos divórcio e novo casamento e suas aplicações para a vida cristã.


Casamento - Definição:
Casamento é a união monogâmica entre um homem e mulher, com o propósito de viverem em harmonia todo o restante de suas vidas estabelecendo assim uma família.
Em quase todo mundo esta união deve ser registrada em cartório, especialmente devido as questões legais relacionadas a bens e a herança. Porém, o casamento é uma prática bem mais antiga do que a existência dos Estados organizados ou mesmo dos próprios cartórios de registros civis.
No Brasil, os primeiros casamentos com registros em cartórios só vieram a ser realizados após a proclamação da República, ou seja, apenas após 1889. Antes disso, durante o Brasil Colônia e Império, os casamentos eram feitos unicamente por sacerdotes católicos (REIFLER, 1992, p. 148).
Em Gn 2.24, antes da queda, temos o casamento como uma instituição divina para toda a raça humana. Por isso, os textos de Malaquias 2.14 e Provérbios 2.17 apresentam Deus como testemunha da aliança do matrimônio entre um homem e uma mulher. 
Deus instituiu o casamento com dois aspectos: “o deixar” e “o unir”. Então, o casamento aos olhos de Deus acontece quando um casal deixa os pais, no sentido geográfico, emocional ou mesmo financeiro e se unem. Esta união envolve os aspectos de propósitos em comum, mas também a questão do relacionamento sexual – “tornando-se os dois uma só carne”. O texto também deixa claro que a união conjugal deve ocorrer entre duas pessoas de sexo oposto – “une à sua mulher” – e que esta união deve ser monogâmica.
Porém, em obediência ao princípio de submissão as autoridades (Rm 13.1), cabem aos cristãos oficializarem seus casamentos segundo as leis do país, sem substituir a bênção por meio de uma celebração eclesiástica com a devida aprovação dos pais, uma vez que estes devem ser honrados pelos filhos (Ef 6.1-3).
Destacamos também que crente só pode se casar com crente (2 Co 6.14 “Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos, porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunhão da luz com as trevas”). Paulo deixa claro isso ao dizer que uma mulher viúva está livre para um novo casamento “somente no Senhor” (1 Co 7.39) e o mesmo princípio está presente no Antigo Testamento com a proibição do relacionamento do povo de Israel com povos idólatras. 
Também devemos ter em mente que o casamento aos olhos de Deus não acontece apenas entre os crentes. Em Mc 6.14-17, temos uma referência ao casamento irregular de Herodes e em Jo 4.17-18, Jesus diz a mulher samaritana que o atual marido dela, na verdade não o era. Ainda em 1 Co 6.9-11 lemos o seguinte: “Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas... herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados,...”. (grifo meu). Em 1 Coríntios 7.12-14 dá a entender que alguns crentes se converteram depois de terem se casado, por isso Paulo diz que se a parte incrédula aceitar continuar casado, que a parte crente não se separe. Vemos então, que o casamento, mesmo entre dois descrentes, também era considerado como casamento, independentemente da crença do casal. Sendo assim, independentemente da fé da pessoa, seu casamento é casamento aos olhos de Deus, não importando o que a legislação diz. “... Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Mt 19.6 e também Ml 2.14 e Pv 2.17). Lopes e Lopes (2001, p. 172) dizem:
Foi Deus quem o instituiu para a raça humana. Todo casamento, portanto, quaisquer que tenham sido os motivos e as circunstâncias que culminaram nele, é uma união legítima entre um homem e uma mulher. 
Portanto, não importa se a pessoa era crente quando casou ou não, ela tem o compromisso de manter a aliança matrimonial assumida, independentemente de sua religião.
Também devemos considerar que o ato sexual por si só, não caracteriza um casamento. Em Gn 34 temos o relato que Siquém desejava se casar com Diná, mesmo já tendo mantido relação sexual com ela. Sendo assim, a pessoa que se envolve com práticas sexuais sem se casar, comete o pecado de praticar o ato sexual fora do casamento (fornicação) e assim ofende os planos de Deus (1 Co 6.16; Ex 22.16-17; Hb 13.4).
Como reflexão podemos considerar uma questão: Será que todo caso de gravidez antes do enlace matrimonial se resolve com o casamento? Parece que certos jovens se casam, sem qualquer planejamento nestas circunstâncias e acham que desta forma tudo estará resolvido, quando na verdade muitos outros problemas poderão surgir. 

Aspectos do casamento
Compromisso de auxílio mútuo Gn 2.18
Compromisso de propagação da raça humana Gn 1.27-28
Compromisso de impedir a impureza 1 Co 7.2,9
Compromisso indissolúvel Ml 2.16

Divórcio
A Bíblia é enfática em dizer que Deus odeia o divórcio (Ml 2.16 “...o SENHOR, Deus de Israel, diz que odeia o repúdio...”) e de que é uma prática que está presente mesmo entre os servos de Deus por causa da dureza do coração humano (“...Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher...” - Mt 19.8). Tanto que em Deuteronômio 24.1-4 temos uma regulamentação da prática do divórcio, não é um incentivo, mas apenas uma regulamentação de uma prática comum já existente nos dias de Moisés.
Tanto que o princípio geral é que o casamento é para a vida toda. Princípio geral citado, por exemplo, como ilustração em Romanos 7.2-3. 
Mas existem algumas situações nas quais o divórcio é lícito segundo as Escrituras. Stott e Lopes e Lopes dizem o seguinte a respeito de uma das possibilidades para o divórcio: 
A única situação em que o divórcio e o novo casamento são possíveis sem transgredir o sétimo mandamento é quando o casamento já foi quebrado por algum sério pecado sexual. (STOTT, 2001, p. 95).
O ensino é que o divórcio só é lícito se houver adultério de uma das partes. Os que se divorciam por outros motivos, se casarem outra vez, cometem adultério, e quem casar com os divorciados também cometem adultério, diz o Senhor (cf. Mt 5.23; 19.9; Mc 10.11; Lc 16.10). O ensino de Jesus é este, qualquer separação exceto por adultério, torna um novo casamento em adultério, além de se constituir em si mesmo uma desobediência clara à ordem divina “aquilo que Deus ajuntou, não o separe o homem”. (LOPES; LOPES, 2001, p. 172)
Vale lembrar que o texto de Mateus 5.32 usa a palavra grega “porneia” que significa qualquer ato de imoralidade ou depravação sexual, como: bestialidade, pedofilia, homossexualismo (RIENECKER; ROGERS, 1995, p. 12), e não somente adultério e os próprios Augustus Nicodemus Lopes e Minka Schalkwijk Lopes reconhecem isto dizendo que “os dois únicos motivos bíblicos para a separação são a infidelidade conjugal e o abandono pelo descrente” (p. 182) (grifo meu).
Sendo assim, o pecado de infidelidade sexual destrói a aliança do casamento conforme podemos ver em Mt 5.31-32 e 19.8-9. Por destruir a aliança matrimonial o divórcio torna-se uma opção, mas ainda assim a melhor coisa a se fazer é a reconciliação do casal e restauração da aliança matrimonial por meio da prática do perdão.
Porém, quando um dos cônjuges não se arrepende de seu pecado (Lc 17.3), ou seja, continua a praticar a imoralidade sexual, faz com que o outro cônjuge fique sem condições de manter a aliança matrimonial.
Neste caso de pecado sexual sem arrependimento, a Bíblia permite o divórcio, pois como seria possível manter uma aliança matrimonial em um relacionamento de bigamia, poligamia ou de promiscuidade? E consequentemente, fica implícita a permissão para um novo casamento. O texto de Mateus 5.32 usa duas expressões que traz o entendimento de que com o divórcio pode-se contrair um novo casamento. A primeira expressão é “a expõe a tornar-se adúltera” e a segunda é “aquele que casar com a repudiada”, ou seja, com a separação é entendido que a pessoa estará em condições de assumir novas núpcias. O problema é que se o divórcio não ocorreu por relações sexuais ilícitas sem arrependimento, os envolvidos estarão cometendo um novo pecado, tanto o cônjuge que tomou a iniciativa na separação, quanto a parte repudiada. Vejamos o que diz o texto: 
Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério. Mt 5.32
Esta compreensão do texto consta na Confissão de Fé de Westminster (XXIV - 5) - Confissão de fé de orientação reformada de 1648: “No caso de adultério depois do casamento, à parte inocente é lícito propor divórcio e, depois de obter o divórcio, casar com outrem, como se a parte infiel fosse morta.”
Como vemos, mesmo no século XVII a compreensão de alguns grupos conservadores já era a de que com o divórcio baseado na exceção bíblica de Mateus 5.32 era possível a parte ofendida um novo casamento. Logo, não é uma nova posição que procura se adequar aos aumentos de casos nos anos recentes.
Por mais difícil que seja para alguns aceitarem que um divórcio por motivo fútil ou qualquer outro motivo que não seja de “porneia”, não dá permissão para nem mesmo a parte inocente de se casar novamente, é exatamente isto o que o texto de Mateus 5.32 diz. O único motivo que possibilita um novo casamento é justamente o de pecado de imoralidade sexual sem arrependimento. Porém, muitas vezes o que está por trás de um motivo fútil para o repúdio é justamente uma situação de adultério. Por exemplo: um homem diz que não quer mais continuar casado com sua mulher porque ela não tem paciência e não o trata bem; eles se separam, e depois de algumas semanas ele está envolvido com uma outra mulher, ou seja, escondido por trás do motivo fútil da separação, estava a intenção de adultério ou o próprio adultério em si confirmado mais tarde.
Então, Jesus Cristo ensina neste texto que o casamento não pode ser dissolvido por qualquer motivo. Possivelmente a expressão de Jesus em Mt 5.31 (Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio) era uma interpretação de Dt 24.1-4. Entre os judeus duas escolas de interpretação desta passagem foram desenvolvidas – Hillel e Shamai, evidenciando que mesmo nos dias de Jesus a prática de divórcio era bem comum. Uma escola defendia a separação por qualquer motivo (Hillel) e outra somente em casos de imoralidade sexual (Shamai). Jesus em Mt 5.32 defende esta segunda interpretação.
Outro ensino implícito é que um solteiro deve considerar qual foi o motivo da separação da mulher com quem, possivelmente, ele está pretendendo se envolver, pois ele cometerá adultério se envolver-se com uma mulher, por exemplo, que não tenha sido divorciada por motivo de infidelidade sexual.
Também devemos enfatizar que o motivo justo para um novo casamento é o pecado de infidelidade sexual sem arrependimento, ou seja, por mais difícil que seja, por mais complicações que um pecado sexual possa trazer para um lar, o ideal é restaurar da aliança matrimonial. Sendo assim, a parte inocente precisa focar sua atenção em agradar a Deus e perdoar sinceramente a parte culpada.
Por isso, às vezes será necessária uma separação momentânea devido a gravidade do pecado, mas a esperança, especialmente da parte inocente deverá ser a de aguardar a manifestação de arrependimento da parte ofensora. Isso poderá levar semanas, meses, ou quem sabe até mesmo anos. Fica implícito aqui, que não será prudente a parte ofendida de uma relação matrimonial em pouco tempo já se envolver com outro relacionamento. Isto expressará muitas dúvidas, até a de que possivelmente a parte inocente não seja verdadeiramente inocente, pois pode-se caracterizar pelo menos uma culpa passiva, ou seja, uma culpa na qual a pessoa não se importava pelo seu casamento, deixando de agir como um cônjuge amoroso, gentil, paciente, etc., contribuindo para o pecado do cônjuge ofensor.
Alguns teólogos e comentaristas evangélicos conservadores até aceitam o motivo da separação, mas não o novo casamento. Todavia, a questão está intimamente ligada a definição do termo divórcio, repúdio e tanto culturalmente quanto biblicamente divórcio é uma anulação legal do casamento, por isso é subtendido que com o divórcio há possibilidade de um novo casamento, em outras palavras, divórcio é uma licença para novas núpcias. Em Dt 24.1-4 a prática era a de lavrar um documento e permitir que a mulher pudesse estabelecer um novo casamento. E o novo casamento não era visto como adultério, pois se assim fosse, deveria ser punido como diz Dt 22.13-21 e Nm 5.11-31.
O Novo Dicionário da Bíblia (DOUGLAS, 1995, p. 1016), tratando Dt 24.1-4 diz: “depreende-se que o divórcio era praticado, e que algum tipo de contrato era dado à esposa rejeitada, e que ela então ficava livre para casar-se com quem quisesse.” O mesmo Dicionário também aborda Mt 19.9: “É difícil dizer que Mt 19:9 exclui a permissão para um novo casamento; e entre os judeus não existia o costume de separação sem permissão para um novo casamento.” (p. 1017). E Coleman também diz em seu livro Manual dos Tempos e Costumes Bíblicos (1991, p. 110): “Na época de Jesus, quando um casal se divorciava, o marido tinha que dar à mulher uma carta de divórcio. Isso dava a ela o direito de se casar de novo.”
Também devemos ter em mente que os evangelhos se completam. Temos quatro evangelhos inspirados (Mateus, Marcos, Lucas e João) e mesmo que as passagens paralelas encontradas em Mc 10.1-12 e Lc 16.16-18 não abordem a exceção tratada por Mateus, devemos nos lembrar que esta é uma das razões para termos mais de um evangelho, para que um esclareça o outro, ou seja, o texto de Mateus é tão inspirado quanto os de Marcos e Lucas e por isso não podemos abrir mão da informação de um em detrimento da de outro. Da mesma forma, Marcos 10.11-12 apresenta uma particularidade que Mateus e Lucas não apresentam – a mulher sendo a pessoa que pode tomar iniciativa para o repúdio ao cônjuge (E se ela repudiar seu marido e casar com outro comete adultério.).
Tratando desta cláusula de exceção de Mateus, Stott (2001, p. 93) diz: 
... esta cláusula é autêntica. Eu gostaria de argumentar, como fazem quase todos os comentaristas conservadores, que temos de aceitar esta cláusula não só como parte genuína do Evangelho de Mateus (pois nenhum manuscrito a omite), mas também como palavra autêntica de Jesus... Parece muito mais provável que a sua ausência em Marcos e Lucas deve-se não à ignorância deles, mas por pressuporem que esta cláusula de exceção fosse assunto de conhecimento de todos. 
Um segundo motivo legítimo para o divórcio consta em 1 Co 7.15 – é o abandono por motivo da conversão.
“Essa cláusula não significa simplesmente que o cônjuge crente tem a liberdade de ser abandonado, mas certamente também significa que tem o direito de casar-se novamente.” (DOUGLAS, 1995, p. 1017)
O contexto de 1 Co 7 deixa claro que a separação não deve ter origem na vontade do crente, mas se ela acontecer por iniciativa do descrente, única e exclusivamente devido a fé cristã, então o divórcio é aceitável.
Cabe a parte crente analisar bem sua conduta para verificar se a parte descrente realmente está tomando a decisão somente devido sua fé, pois pela graça de Deus, um cônjuge pode ser usado como instrumento para “ganhar” seu cônjuge descrente, “sem palavra alguma, por meio do procedimento” (1 Pd 3.1). 
Portanto, se o divórcio acontece baseado em uma das duas exceções ensinadas pela Bíblia admitimos que o recasamento é aceitável. Pallister (2005, p. 188) diz o seguinte:
Na prática, parece-nos extremamente severo e bastante arriscado proibir um novo casamento a uma pessoa que se divorciou sem que tivesse culpa na ocorrência e que, de acordo a autorização expressa da Bíblia, tenha optado pelo divórcio.
Ou seja, se divórcio é uma licença para um novo casamento e os ensinos bíblicos nos apresentam possibilidades para o divórcio, logo a Bíblia também permite o novo casamento nestas circunstâncias para a parte ofendida.

A situação de um divorciado
Algo que também devemos considerar é que é possível sim uma pessoa viver sem cometer pecados de fornicação, adultério, ou qualquer outro pecado de imoralidade sexual, ou seja, uma pessoa que se divorciou sem um motivo considerado justo pelas Escrituras, pode sim ficar o resto de sua vida sem se casar ou se reconciliar com o cônjuge. Isto lhe é possível.
Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forçar; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar. 1 Co 10.13
1 Coríntios 10.13 ensina que ninguém é tentado além do que pode suportar. Sendo assim, uma pessoa divorciada pode procurar se reconciliar com seu ex-cônjuge, refletindo a graça, misericórdia e perdão de Deus ou decidir viver sem envolvimento com o sexo de forma ilícita.
Ser benigno, compassivo e perdoar como Deus perdoou é uma ordem (Ef 4.32), por isso um casamento com uma parte apenas que seja fiel ao Senhor, pode enfrentar qualquer dificuldade, pois sua alegria será obedecer a lei de Deus (“Grande paz têm os que amam a tua lei...” Sl 119.165) e não estará baseada em circunstâncias ou pessoas.
1 Coríntios 7.8-9 (“E aos solteiros e viúvos digo que lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo. Caso, porém, não se dominem, que se casem, porque é melhor casar do que viver abrasado”.) também diz que é possível um crente viver sem casamento.
Em Mateus 19, após Jesus tratar o assunto de casamento, divórcio e novo casamento, deixando claro que quem se casa não deve se separar, a não ser “por causa de relações sexuais ilícitas” (v. 9), os discípulos entenderam que devido a seriedade do compromisso do casamento era melhor até que não se casassem (v. 10). Mas Jesus continuou sua abordagem dizendo que nem todos estão preparados para viverem como eunucos, ou seja, como pessoas com decisão de abstinência sexual, porém, existem pessoas que assim se fizeram “por causa do reino dos céus” (v. 12).
Enfim, assim como é possível a um solteiro viver em santificação, se abstendo da imoralidade sexual (1 Ts 4.3-8), é também possível a uma pessoa divorciada viver da mesma forma (“se, porém, ela vier a separar-se, que não se case, ou que se reconcilie com seu marido.. – 1 Co 7.11), tendo domínio próprio (Gl 5.23) e procurando sempre glorificar a Deus em todas as coisas.
Da mesma forma, uma pessoa que tem seu cônjuge em situação enferma que o impossibilite de conceder o que lhe é devido (1 Co 7.3), ou seja, atende-la sexualmente, ainda assim, pela graça de Deus, é possível manter a aliança matrimonial, bem como a pureza sexual. 
Como diz BROGER: “A paz e alegria de Deus estão disponíveis ao crente independentemente de outras pessoas, bens materiais ou circunstâncias (Sl 119.165; Mt 5.3-12; Jo 14.27; 15.11; 16.33; Rm 14.17; Fp 4.4-7; 1 Pe 1.6-9).” (1996, p. 98) Ou seja, um crente pode ser feliz casado ou solteiro, desde que seu foco esteja no agradar a Deus com sua vida acima de todas as coisas. 

Divórcios e novos casamentos antes da conversão
Devido ao grande crescimento de casos de divórcios e recasamentos na sociedade atual, a igreja cristã de hoje vai encontrar vários casos de novos convertidos com o passado marcado por estes erros. Talvez divórcio sem uma base justa segundo as Escrituras ou dois ou três casamentos, e coisas parecidas, mas os erros cometidos em ignorância não podem ser imputados sobre estas pessoas. Como diz Atos 17.30 “Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam;”. 
“Um convertido que previamente se divorciara, sobre bases suficientes ou não, e que tornou a casar-se, não pode tornar ao cônjuge original, e seu atual casamento não pode ser reputado como adultério (1 Co 6:9,11).” (DOUGLAS, 1995, p. 1017).
Não devemos esperar que um novo crente abandone sua situação de casamento atual, até porque o recasamento não é um pecado imperdoável. Devemos expressar perdão e incentivar práticas cristãs para que o casamento atual seja fortalecido, visando a glória de Deus. O evangelho deve expressar a graça de Deus e devemos tomar cuidado com o legalismo que pode até acabar com famílias, ao invés de fortalecê-las em Cristo.
Também podemos considerar o caso de alguém que se separou sem as bases bíblicas antes de sua conversão. Esta pessoa, idealmente, deveria tentar voltar para o seu cônjuge como expressão de seu arrependimento, ou seja, se reconciliar ou mesmo assumir a vida de solteiro, não visando casamento com ninguém. Porém, se o retorno ao cônjuge não for mais possível por causa de envolvimento conjugal deste com outra pessoa, podemos considerar que o caso está agora na cláusula de exceção de Mateus 5.32.

Considerações finais
A posição bíblica aqui defendida pode ser categorizada como uma perspectiva que aceita o divórcio e o novo casamento em circunstâncias limitadas e que independentemente do pecado cometido para permitir o divórcio a prioridade é a reconciliação e manifestação de perdão.
O que deve ser enfatizado é que o ideal de Deus deve ser sempre buscado, ou seja, uma união monogâmica para toda a vida. Não importam as exceções, elas são para casos excepcionais, sempre que possível a união com o primeiro cônjuge deve ser mantida ou restaurada.
Cabe a cada crente se lembrar do princípio de negar a si mesmo (Lc 9.23-24), visando glorificar somente a Deus. E cabe as igrejas auxiliarem os casais a viverem seus casamentos de forma bíblica e também ensinar os jovens a importância de se casarem com pessoas que verdadeiramente amam ao Senhor, para que tenham casamentos bem sucedidos, fazendo a diferença nesta sociedade na qual vivemos.


Referências bibliográficas:
ASSEMBLÉIA DE WESTMINSTER. A confissão de fé de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2005.
BROGER, John. Autoconfrontação: um manual de discipulado em profundidade. 2. ed. Palm Desert: Biblical Counseling Foundation, 1996. 
BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Tradução: João Ferreira de Almeida, edição revista e atualizada. Barueri: SBB, 1969. 
COLEMAN, William. Manual dos tempos e costumes bíblicos. Tradução de Myrian Talitha Lins. Venda Nova: Betânia, 1991.
DOUGLAS, J.D., organizador. O novo dicionário da Bíblia. 2. ed. Tradução de João Bentes. São Paulo: Vida Nova, 1995.
GIOIA, Egidio. Notas e comentários à harmonia dos evangelhos. 3. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1987.
LOPES, Augustus Nicodemos; LOPES, Minka Schalkwijk. A Bíblia e a sua família: exposições bíblicas sobre o casamento, família e filhos. São Paulo: Cultura Cristã: 2001.
PALLISTER, Alan. Ética cristã hoje: vivendo um cristianismo coerente em uma sociedade em mudança rápida. Shedd Publicações: São Paulo, 2005.
REIFLER, Hans Ulrich. A ética dos Dez Mandamentos. São Paulo: Vida Nova, 1992.
RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave linguística do Novo Testamento grego. Tradução de Gordon Chown e Júlio Paulo T. Zabatiero. São Paulo: Vida Nova, 1995.
STOTT, John. A mensagem do Sermão do Monte: contracultura cristã. Tradução de Yolanda M. Krievin. 3. ed. São Paulo: ABU, 2001.


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